Clique aqui para acessar um artigo recente do Dr. Sérgio Pena sobre testes genéticos para casais com perdas gestacionais repetidas.
Saiba mais sobre o exame do cariótipo em sangue para o casal e o exame de trombofilia para a esposa. Leia sobre a consulta genética pessoalmente ou o Aconselhamento Genético On-line para o casal com perdas fetais.
O primeiro abortamento na história reprodutiva de um casal deve ser encarado com tranqüilidade e não deve ser causa para alarme. Em geral, um único aborto não implica em um risco suficientemente elevado do nascimento de uma criança anormal no futuro para justificar investigações genéticas do próprio casal. Porém, como já discutido no tópico anterior (veja aqui), do ponto de vista psicológico é importante fazer os estudos do material fetal.
Se ocorrer um segundo abortamento, a situação muda, pois se levanta a suspeita de que um fator sistemático possa estar levando o casal a perdas fetais repetidas. Com base em argumentos de custo-benefício, é prática comum entre obstetras pedir o aconselhamento genético ou solicitar testes genéticos do casal apenas após o terceiro aborto. Entretanto, como veremos abaixo, do ponto de vista genético, os casais devem ser sempre investigados após o segundo aborto, inclusive quando há nativivos e os abortos não são consecutivos.
Entre os casais com perdas fetais repetidas, uma proporção apresenta anomalias cromossômicas, geralmente translocações balanceadas ou aneuploidias. Estes casos devem ser identificados porque não só eles envolvem uma alta taxa de recorrência de perdas fetais como também um risco aumentado de nascimento de nativivos com aberrações cromossômicas. Isto é devido ao fato de que indivíduos portadores e translocações balanceadas podem produzir diferentes gametas anormais, sendo que em alguns casos a alteração cromossômica vai ser compatível com a sobrevida a termo. Estudos publicados sobre investigação cromossômica de casais com duas ou mais perdas (um total de perto de 8.000 casais) mostram uma taxa geral próxima de 6% de translocações cromossômicas nos casais (4% entre as esposas e 2% entre os maridos). Esta taxa parecia ser a mesma em casais com duas perdas fetais e com três ou mais perdas.
A experiência do Laboratório GENE sobre a proporção de translocações cromossômicas balanceadas em casais com perdas repetidas é similar. Em 2002, revisamos 526 casais com história de mais de uma perda fetal que foram investigados no Laboratório GENE do ponto de vista cromossômico (cariótipo em sangue). Em 26 destes casais encontramos translocações cromossômicas (4,9%), sendo que 3,6% em mães e 1,6% em pais. Além disso, encontramos mosaicismo cromossômico (uma mistura de células com cariótipo normal e cariótipo alterado) de um dos pais, geralmente de baixo grau, em 12,7% dos 526 casais estudados. Vamos ver estes casos em detalhe:
- Translocações cromossômicas e perdas fetais repetidas - Experiência do Laboratório GENE
Como vimos acima, os exames cromossômicos do Laboratório GENE em amostras de sangue obtidas de casais com perdas fetais repetidas mostram uma frequência de 4,9% de translocações cromossômicas balanceadas, o que é muito similar à literatura mundial. Nós então fizemos a análise dos casos de acordo com o número de perdas fetais e da presença, ou não, de nativivos. Não houve diferença significativa entre a frequência de translocações cromossômicas em casais com duas (4,4%) e três ou mais perdas gestacionais (5,2%). Também, a fecundidade de casais com história de nativivos não foi estatisticamente diferente dos casais que tiveram apenas perdas fetais. Assim, os nossos achados confirmam os dados da literatura: os casais devem ser investigados com estudos cromossômicos (cariótipo) a partir da segunda perda fetal, mesmo que já tenham tido nativivos normais!
- Conduta Sugerida para Investigação Genética dos Casais com Perdas Gestacionais Repetidas
Vimos acima que anomalias cromossômicas fetais são as causas mais frequentes de abortamentos, e que uma significativa proporção dos casais com perdas fetais repetidas apresentam, eles mesmos, alterações cromossômicas. Ao fazermos exames cromossômicos dos pais e dos fetos em casos de perdas fetais repetidas, podemos, então, encontrar três tipos de combinações possíveis, ou seja: casais e fetos com alterações cromossômicas; casais cromossomicamente normais e fetos com cromossomopatia; e casais e fetos cromossomicamente normais.
O primeiro grupo, constituído principalmente por pais com translocações cromossômicas balanceadas, representa o grupo de alto risco genético de repetição da perda fetal, e também de nativivos anormais, sendo este último o acontecimento que deve ser evitado a todo custo. Estes casais podem tentar novas gravidezes, contanto que elas sejam monitorizadas por técnicas citogenéticas de diagnóstico pré-natal (coleta de vilosidades coriônicas ou amniocentese). Recentemente emergiu também a possibilidade de se fazer o diagnóstico citogenético pré-implantação (empregando reprodução assistida) para estes casais. Entretanto, várias revisões críticas da literatura médica não têm mostrado que esta estratégia esteja cientificamente justificada.
No segundo grupo, ou seja, casais cromossomicamente normais e fetos com cromossomopatia, há uma explicação do motivo das perdas fetais, mas não sabemos o motivo das cromossomopatias fetais repetidas. Alguns estudos têm sugerido que estes casos são predominantemente devidos a efeitos relacionados com a idade materna e que, ademais, pode haver na população considerável variabilidade de risco para alterações cromossômicas fetais. Assim, para estes casais há também a indicação de diagnóstico pré-natal em futuras gravidezes. Nós, em geral, recomendamos a amniocentese, que é feita no segundo trimestre, após o período em que as perdas gestacionais são mais comuns.
O terceiro grupo, casais e fetos cromossomicamente normais, não apresenta risco aumentado de nativivos cromossomicamente anormais e, assim, não há indicação clara para o diagnóstico pré-natal. Dentro deste grupo estão os casais com causas maternas de perdas fetais, tais como malformações uterinas, anticorpos anticardiolipina etc. e também casais cujos fetos sofrem de doenças genéticas não cromossômicas tais como os defeitos de fechamento do tubo neural ou doenças autossômicas recessivas.
Pelo exposto, fica claro que todo casal com duas ou mais perdas gestacionais, independente da presença de nativivos, deve fazer uma avaliação cromossômica (exame do cariótipo - clique aqui) e consulta de aconselhamento genético. Em alguns casos pode ser indicado o estudo de Trombofilia materna.
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