Belo Horizonte, Terça-Feira 02/01/2001
Teste feito em BH revela ancestralidade

Quem somos? De onde viemos? Perguntas até há pouco tempo complicadas de serem respondidas, mesmo por estudiosos da gênese humana, são hoje esclarecidas com larga margem de acerto a partir de uma simples e indolor escovada na bochecha - base do teste de ancestralidade desenvolvido pelo Núcleo de Genética Médica (GENE), também conhecido como Genealogia por DNA (molécula que contém a informação genética). Inédito no mundo, o método foi desenvolvido em Belo Horizonte pelo geneticista mineiro Sérgio Danilo Pena, presidente do Gene, professor titular do departamento de Bioquímica e Imunologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor do Centro de Análise e Tipagem de Genomas do Hospital do Câncer A. C. Camargo (CAGT), em São Paulo.
O método deu origem a uma pesquisa, cujo resultado indica que a população do Brasil é formada pela confluência dos grupos geográficos europeus, africanos e asiáticos, os três principais blocos continentais de população do mundo. O trabalho envolveu dez pesquisadores. “Essa exuberância de diversidade nos dá uma variabilidade genética fantástica. Na Europa dá até vontade de chorar ao ver a pobreza que reina nesse sentido, o quão uniforme eles são", diz Pena. O estudo apresenta dois níveis, o pessoal e o populacional. O nível populacional mostra o grande grau de miscigenação que ocorreu no Brasil desde o descobrimento. Pode até não parecer grande novidade, mas o fato é que, nos dias de hoje, na maioria das vezes, tal constatação não fica patente ao olhar apenas a cor da pele das pessoas.
Pena pondera que o mapeamento da gênese humana corresponde a “mero trabalho cultural". “A pessoa não extrai nenhuma informação médica, tampouco genética, apenas de interesse pessoal", frisa ele. A vantagem, aponta, é a garantia da certeza do conhecimento das próprias raízes. “Acho que isso dá uma âncora para as pessoas, uma âncora psicológica", diz.
As pesquisas de mapeamento da ancestralidade foram inciadas há três anos e foram baseadas na verificação da ancestralidade materna, paterna e genômica. “Temos obtido dados fantásticos, mostrando muito pouca relação entre a aparência física e a raça social supostamente existente", diz Pena. “Embora na superfície existam grupos bem demarcadas, existem correntes subterrâneas de genes onde existe uma mistura tremenda".
De acordo com o especialista, a mistura de genes se passa “a um nível insensível muito maior do que o nível físico". “Não se pode, confiavelmente, no Brasil, estabelecer a ancestralidade de uma pessoa olhando apenas a cor da pele ou sua aparência física".

Exame sai por R$ 880

O “pacote completo" do teste de ancestralidade realizado por Pena e sua equipe sai a R$ 880. Mas pode-se optar por saber apenas a ancestralidade genômica (R$ 350), a ancestralidade materna (R$ 400) e a ancestralidade paterna (R$ 350). Formalmente, a mulher não pode fazer o teste de ancestralidade paterna porque seu organismo não possui cromossomo Y - transmitido apenas de pais para filhos do sexo masculino. Nesse caso, a interessada deve coletar amostras de células bucais do pai ou de um irmão.
Pena não considera o tratamento caro. “Pelo esforço que fazemos, é o preço mínimo que podemos praticar", diz, admitindo, contudo, ser possível atingir uma economia de escala. “Havendo uma demanda grande, poderemos robotizar, automatizar algumas etapas dos exames". Segundo ele, o teste já foi encomendado por 45 pessoas. Após a realização do exame, o interessado recebe um “diploma" com um breve histórico de sua origem.
Para ampliar a oferta do serviço, atingindo um número maior de interessados, o geneticista pretende disponibilizar na Internet páginas em espanhol e inglês. “Acessando a Internet o indivíduo se cadastra no site e recebe o kit de coleta que deve ser devolvido junto com um cheque. Fazemos os exames e mandamos o diploma. Por hora, aceitamos no Brasil cheques pré-datados, mas com a oferta para outros países, vamos trabalhar com cartões de crédito. Mineiramente iremos fazendo aos poucos". O exame é entregue aos interessados em menos de um mês. O endereço da página de Pena é www.genealogiapordna.com.br.

Mais de 30% dos brancos têm origem africana

Minas Gerais tem a cara do Brasil. É o que revela pesquisa recente conduzida pela equipe do professor da UFMG, Sérgio Pena, que analisou amostras de DNA de 247 pessoas. O estudo revelou que 33% dos brancos de Minas têm ancestralidade materna africana e 33% possuem ancestralidade materna índia. O restante tem origem européia e ameríndia.
“Minas Gerais é uma espécie de minibrasil. É o estado mais representativo como um todo. Minas é um ponto de equilíbrio do país, uma média do Brasil. Quem é mineiro é brasileiro da gema", diz Pena, que apesar de branco constou ter ancestralidade índia.
O retrato molecular do Brasil mostra que, principalmente na linhagem materna, há uma incrível diversidade. No grupo de negros pesquisado, 40% têm origem africana, 27% euroasiática e 33% africana e eurosiática. No grupo de brancos, 7% têm origem africana, 55% asiática e o restante dos dois lados. O grupo de pardos revelou que 29% têm origem africana, 35% euroasiática e 36% africana e euroasiática.
“Com a constatação de que nossa população é dividida proporcionalmente em ameríndio, africano e europeu e, do lado paterno, predominantemente europeu, podemos afirmar que o país é uma espécie de casa-grande e senzala", diz Pena. O estudo remete ainda à reflexão sobre o preconceito racial. “Ao discriminar alguém a pessoa pode estar discriminando a si própria. Essa mistura de genes no Brasil é uma coisa muito atraente. O brasileiro é o povo que provavelmente tem a maior diversidade genética do mundo", explica o geneticista.
Ele observa que, cientificamente, não existe nenhuma base biológica para discriminação racial ou de cores. “Do ponto de vista biológico é papo furadíssimo", diz. Mas a verdade, concorda, é que a discriminação continua. “A nossa grande mensagem para o século XXI é que ao invés de termos vergonha de ser mestiços, de escondermos essa realidade, devemos ostentar isso como uma bandeira, como algo de orgulho. Não devemos ver a desigualdade entre as pessoas como uma justificativa ou como uma motivação para descriminação. Pelo contrário, devemos simplesmente apreciar as vantagens e as qualidades de cada um. O que faz o mundo interessante é ter gente de todo tipo. Se todos fossem iguais, o mundo seria muito enfadonho", conclui.




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